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quinta-feira, 17 de março de 2011

MUTAÇÕES

A morte de Heath Ledger, em Janeiro de 2008, antes do lançamento do filme que iria lhe dar o Oscar póstumo de melhor ator coadjuvante no ano seguinte pelo papel do Coringa em “Batman: o Cavaleiro das Trevas”, causou perplexidade em função do sucesso que o ator vinha alcançando, principalmente a partir de “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005). A causa da morte se deveu a uma mistura exagerada de medicamentos prescritos, como antidepressivos, calmantes, analgésicos e tranquilizantes.


 Heath Ledger e seu célebre Coringa
Fonte: cinesemana.com.br

Numa análise rasteira poderíamos dizer que este fato reforçaria o estereótipo de que no meio artístico existe uma gigantesca quantidade de malucos, pessoas que fazem questão de se envolver com drogas de todo o tipo, etc, etc. Porém, sempre fui refratário de tal avaliação. Tratando-se de seres humanos as questões nunca são simples, muito pelo contrário, tendem a ser por demais complexas para que num único insight se chegue a alguma conclusão muito próxima da verdade.

Ao ler a autobiografia da atriz norueguesa Liv Ullman – “Mutações” – Ed. Cosac Niafy – 224 págs. – 2008 – identifiquei o que acredito ser uma linha de pensamento mais consistente sobre o tema. Os atores vivem em meio ao seguinte dilema: têm que emprestar seu corpo e sua mente em prol de um outro ser, representado pelo personagem. O sucesso alcançado nesta área não é isolado das conseqüências externas – fama súbita, vidas devassadas, muito dinheiro – e em meio a tudo isso ainda existe um ser humano com suas incríveis dúvidas sobre a vida e o seu rumo futuro. Se no particular tal fato já é complicado, imagine tendo que lidar com a pressão de sempre interpretar, a vista de todos, o mais alto nível em seu trabalho.

Liv Ullman, nascida em 1938, relata em sua autobiografia tais inquietudes. Obra datada inicialmente de 1975, foi escrita ainda em meio ao sucesso obtido com a parceria que teve com o diretor sueco Ingmar Bergman. Taxada como exitosa atriz européia, sua transição para Hollywood teve ainda a reboque a criação da filha Linn, fruto do relacionamento com Bergman. No livro fica clara a dificuldade que é a mescla entre a fama e o ato de lidar com pessoas estranhas a todo momento por dever de ofício, com a necessidade de transitar entre diferentes personalidades num só corpo. Esta última característica apresenta-se quando a atriz comenta sobre papéis interpretados, exemplificando os dilemas que enfrentava à época.

Ganha destaque neste aspecto o personagem Nora, da peça do norueguês Henrik Ibsen, “A Casa de Bonecas” (1), interpretada por Ullman tanto na Noruega natal como nos Estados Unidos. Os embates de uma estória densa, que no seu idioma original já eram de um grau de dificuldade intenso por conta da necessária imersão, demonstram-se num nível mais alto quando enfrentados aos olhos de um público distinto, num idioma diferente – a própria atriz fez correções no roteiro para que melhor se adaptasse ao sentido da obra – trazendo um stress extra para a atuação.

O livro inicialmente demonstra-se de difícil leitura, pois o leitor ainda não está ciente de que enfrentará idas e vindas, tanto no tempo – ora se remetendo à infância na Noruega, ora aos tempos ao lado de Bergman ou ao lado do primeiro marido, de maneira não linear – quanto no contexto, quando a atriz dialoga com seus personagens a narrar suas inquietudes. Porém, após o entendimento de tal dinâmica, serve principalmente para identificar, tanto pelo lado do ser humano quanto pela atuação artística, todos os obstáculos que essa atriz enfrentava em meio aos loucos anos 70.

Neste ponto, voltamos então ao gancho inicial deste post. Tanto Ledger quanto Ullman conviveram com as constantes mutações presentes no seu dia-a-dia. Ora tendo que enfrentar as verdades da vida, ora tendo que ultrapassar os limites de corpo e mente para incorporar um outro ser. Se existe uma profissão em que é extremamente difícil não levar o trabalho para casa é esta de ator. Ainda mais quando de grande sucesso. Apoios psicológicos e químicos, quando mal-trabalhados, podem levar até mesmo à morte, e essa fronteira encontra-se muito próxima quando falamos do meio artístico e, infelizmente, perdemos grandes talentos por isso. Não devemos, portanto, ser alheios a este contexto e fazer pré-julgamentos apressados. Ledger faleceu por não saber lidar com tais mutações. Ullman ainda está viva para continuar contando suas histórias. O ser humano é, como já disse anteriormente, muito complexo.

Termino este texto transcrevendo um trecho da autobiografia de Ullman, na esperança de melhor demonstrar o que acima tentei expor:

“Nós, que estamos vivos, neste momento, somos apenas uma parte infinitesimal de algo que existe há uma eternidade e continuará a existir, quando não houver nada mais servindo como prova de existência da Terra.
Entretanto, precisamos sentir e acreditar que somos tudo.
Esta é nossa responsabilidade – não apenas para conosco mesmos, mas para com tudo e todos com quem partilhamos nosso tempo de existência.
O que é mutação?
Algo que acontece dentro de mim? Ou algo que experimento em outras pessoas?
Talvez seja um impulso consciente ainda mais forte e, sendo assim, para onde conduz?
Para que estou me esforçando?
Para me tornar o melhor ser humano possível? Ou a melhor artista?
O que realmente desejo fazer com aquilo que alcancei?
O que farei com a mutação?
Talvez não seja tão importante saber.
Talvez não seja tão importante chegar”. – Mutações – pág. 186.

(1)     "Casa de bonecas" narra em três atos a hipocrisia e as convenções da sociedade do final do século XIX. Nora salva a vida do marido doente graças a um empréstimo que consegue mediante a falsificação da assinatura de seu pai. Mais tarde, o marido, Torvald, reprova a atitude pelas possíveis conseqüências para sua carreira profissional, sem considerar o gesto um sinal de amor. Com isso, a protagonista acaba abandonando o marido e os filhos. A obra pertence ao período realista de Ibsen e escandalizou o público de então com sua denúncia da moral burguesa.

Fontes: acesso em 27 de Dezembro de 2010

sexta-feira, 11 de março de 2011

MULHERES

Confesso que sou um grande admirador das mulheres. Estou cercado por elas, tanto no trabalho quanto na minha família, e posso dizer que, sendo modesto, pelo menos 90% delas demonstra uma força interior muito grande para ultrapassar os obstáculos que a vida impõe. Porém, um mistério para mim se coloca quando penso nesta questão: se as mulheres são tão fortes assim, porque a seleção feminina de vôlei do Brasil fraqueja quando menos se espera?

É fato que sob o comando de José Roberto Guimarães elas deram um salto de qualidade. E isso não é pouco, levando-se em conta que o comandante anterior era o supervitorioso Bernardinho. Na fase em que estavam sob o comando do atual treinador da seleção masculina possuíamos uma geração tão talentosa quanto à atual, com jogadoras do naipe da Ana Moser, Márcia Fú, Ida, Fernanda Venturini, entre outras. Os maiores resultados alcançados por esta geração foram duas medalhas de bronze olímpicas (1996/2000), um tricampeonato do Grand Prix (1994/1996/1998) e um vice-campeonato mundial (1994) – o que não é pouco, diga-se de passagem.

Naquela ocasião resultados melhores não advieram talvez pelo fato delas terem sido contemporâneas de uma geração cubana fantástica, que tinha à frente um talento assombroso como Mireya Luiz. As cubanas foram então tricampeãs olímpicas (1988/1992/1996), sempre superando a equipe de Bernardinho nas principais competições, inclusive no Mundial de 1994 disputado no Brasil, em que perdemos a final em frente a 12.000 torcedores em São Paulo, e ainda tendo protagonizado cenas de pugilato explícito nas Olimpíadas de Atlanta com as brasileiras, ao término da semifinal, quando as caribenhas também saíram vitoriosas.

O fato de terem sido as cubanas uma pedra no sapato das brasileiras naquela época põe por terra um argumento falacioso que o destempero ou falta de controle dos nossos nervos se daria em função de nosso sangue latino, uma vez que as caribenhas possuem o mesmo fator. Poderia se dizer que o modo extremado de Bernardinho não seria o mais adequado para as mulheres – até acho isso, mas não para resolver esta questão, pois ele é vencedor em clubes femininos e ganhou Grand Prix com a seleção. Considero isso verdade em benefício da seleção masculina, onde seu estilo se encaixa com mais facilidade. Aliás, este é um mérito da Confederação Brasileira de Voleibol, ter invertido os técnicos em prol do esporte brasileiro como um todo.

Assim, me parece ser difícil para nós admitir simplesmente que as cubanas tinham uma geração superior a nossa, e ponto. Mas acredito que este seja o fato, e os resultados não deixam de demonstrar. Ultrapassada esta etapa e iniciada a gestão de José Roberto Guimarães, outras atletas de ponta surgiram, assim como a geração cubana já não era mais a mesma. No entanto a luta para alcançar grandes resultados com constância não tem sido 100% exitosa.

As meninas foram campeãs olímpicas pela primeira vez em Pequim, 2008, devolvendo um resultado adverso que tiveram em relação às russas quatro anos antes, nas Olimpíadas de Atenas, quando perderam uma semifinal que vinham ganhando no 4º set – numa partida em que venciam por 2 sets a 1 – por 24 a 19 e não conseguiram fechar, com as russas vencendo o jogo no tie-break que veio em seguida. Então, no ano passado, quando todos nós imaginávamos que iríamos finalmente vencer um Mundial, com uma campanha invicta até o jogo final, assim como chegou o time russo, perdemos. Ou seja, uma rotina de idas e vindas nos degraus do pódio das principais competições.

Dessa forma, digo-lhes, a única conclusão que chego é que, mesmo que no masculino estejamos sempre por 1 ou 2 pontos de diferença entre a vitória ou a derrota, pelo menos por lá a mentalidade vitoriosa já está assentada. Entramos nos jogos nos imaginando superiores e que vamos ganhar ao final, o que não necessariamente nos faz atuar acomodados, pois uma das diretrizes do Bernardinho é que tão difícil quanto ser o nº 1 é se manter nesta posição, e que temos que provar a cada jogo que somos dignos dela.

Pois as mulheres, talvez respeitando um ciclo natural de altos e baixos, tal qual o ciclo menstrual que vivem todo mês – e falo isto apenas como semelhança abstrata, e não como razão ou motivo para os resultados “negativos”, até o ponto que ser vice-campeão mundial pode ser considerado como tal – ainda não introjetaram esse modo de pensar. Além disso, claro, temos equipes de alto nível do outro lado que também buscam o mesmo resultado – assim como no masculino, por isso nos questionamos sobre qual é a diferença, ora bolas!

Dessa forma, no momento decisivo, elas ainda se vêem a enfrentar aquele dilema: será que somos capazes? Será que vamos sair vitoriosas? Os homens, pelo contrário, estão entrando com essa certeza interior, não fazem este tipo de questionamento, ao ponto de fazer de tudo para alcançar o objetivo almejado, o que já gerou uma polêmica danada por aqui (ver post Razão, Paixão e Ética no Esporte – Out/2010). Mas fato é que esta abordagem tem funcionado.

Será que o x da questão é que as mulheres são mais paixão que razão? É, pode ser, mas isso também é um estereótipo pra lá de batido. De qualquer modo continuarei torcendo para que elas se afirmem no cenário mundial no mesmo nível que o já alcançado no masculino. Em verdade, já somos respeitadíssimos em ambos os gêneros no vôlei mundial, mas faz parte de nossa cultura querer sempre mais, ainda mais quando sabemos de onde podemos tirar, não? E de nossas mulheres, sabemos que pode vir muito mais!

Fontes acessadas em 31 de Dezembro de 2010:


quinta-feira, 3 de março de 2011

TROPA DE ELITE 2

Saio do escuro do cinema e começo a andar naquele mar de gente envolta com preocupações natalinas*. O que comprar para o afilhado, aquele conhecido que sempre aparece nas festas, a tia Melina e o tio Joaquim, além dos parentes mais próximos – esposa(o), filhos, pai e mãe?

Porém, a adrenalina está lá em cima. O “osso duro de roer/pega um/pega geral/e vai pegar você” nos rodeia no dia a dia e acaba de ser exposto em tintas vivas na telona. Cada semblante que passa por mim mascara, na flor da pele, uma tranqüilidade construída em torno do paraíso particular de cada um, alheio - propositalmente ou levianamente, não importa - aos sintomas que a sociedade apresenta de um certo desalinho com o que imaginamos de ideal.

Perguntas trafegam por minha mente: como melhorar o mundo em que vivemos é a principal delas. O agora Tenente-Coronel Nascimento colocou em ações e palavras o inconformismo com o que ele chamou de “sistema”. Somos nós faces servis deste mesmo sistema?

Cada vez que recebemos nosso salário imaginamos como pagar nossas contas. Algumas delas são contas de caráter privado, por exemplo, a conta de cartão de crédito. Mas lhes pergunto: o crédito é barato em nosso país? Já foi mais caro, mas ainda convivemos com uma das mais altas taxas de juro do mundo. Isso porque estamos numa economia inflacionada, inflada pelo desejo consumista de classes que antes não tinham tal poder aquisitivo, e que por mil e um motivos, internos e externos, agora se vêem com a possibilidade de comprar sua geladeira triplex frost-free para fazer o churrasquinho do final de semana.

É óbvio que essas mesmas classes lutaram anos e anos por um bem melhor, e têm o devido direito de usufruí-lo quando o encontra em seu horizonte. Mas o embate chave para todos é: podemos ter uma justa distribuição de renda sem ter uma sociedade viciada na corrupção gerada pelo capital multiplicado por diversas vias? Por enquanto foram poucos os caminhos identificados para uma resposta positiva a esta pergunta. Talvez em comunidades isoladas no meio da Amazônia tenhamos uma que atenda aos nossos maiores devaneios ideológicos.

O custo financeiro alimentado acima já foi propalado em diversos momentos como sendo um preço a pagar pelo alto nível de inadimplência. Porém ao mesmo tempo ouvimos dizer que o bom trabalhador, da classe mais humilde, é um bom pagador, honra o seu nome, capital mais caro a sua alma. Então quem é o mau pagador?

Vou mudar a última pergunta tentando atingir o âmago da questão por uma outra porta: qual é a principal característica do crime, seja ele organizado ou desorganizado? É não ter regras. O crime não precisa responder a ninguém ou a nada, e isso a facilita a sua entrada em diversos patamares de nossa sociedade. Agora, quem dita as regras para a nossa sociedade? Seria, em tese, a classe política, representantes maiores do povo nas instâncias legislativas.

Por este raciocínio, temos no longa de José Padilha, “Tropa de Elite 2” (2010), um paradoxo: o principal vilão é o “sistema”, formado por agentes corruptos – polícia e políticos principalmente – que possui tentáculos tão longos que chegam até a Câmara dos Deputados em Brasília. Estes agentes, que não seguem regras, são os mesmos que deveriam construir as regras que a sociedade deve seguir. São os maus pagadores e que pouca se importam em o sê-lo.

Assim, temos o grosso, a grande maioria da população seguindo regras que servem aos interesses de uma minoria, que não precisa se submeter às mesmas. A revolta pontual quanto aos desmandos dessa elite não os afeta em nada. Seriam necessárias gerações para mudar tal cenário, gerações de embate contínuo à arquitetura vil em que estamos inseridos. Porém essa revolta chega a tanto que não é a toa que o momento de maior descarga de adrenalina, aquele em que desejamos estar na pele do personagem de Wágner Moura, mais uma vez numa atuação de alto nível, é quando o caveira, agora travestido de sub-secretário de segurança, enfia o cacete – fisicamente mesmo - num político. Somos nós batendo no sistema, ou numa ponta dele, pelo menos para o nosso deleite por dois minutos, tal qual um saco de pancadas de uma academia de boxe para aliviar o stress.

Nesse sentido, o filme se presta ao seu final a mandar um recado: existe a necessidade de nos incomodarmos com isso, esse atual estado de coisas, mas sempre, a todo momento, e não por apenas dois minutos. Sem isto não estaremos criando gerações futuras com um mínimo de probabilidade de viver numa sociedade mais justa e igualitária. Do contrário, como diz a música ao final, brilhantemente interpretada pelos Paralamas do Sucesso – eu não sei da’onde vem o tiro. Mas que irá nos atingir, irá.

O Calibre


Composição: Herbert Viana

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d'aonde vem o tiro (2x)
Por que caminhos você vai e volta?
Aonde você nunca vai?
Em que esquinas você nunca pára?
A que horas você nunca sai?
Há quanto tempo você sente medo?
Quantos amigos você já perdeu?
Entrincheirado, vivendo em segredo
E ainda diz que não é problema seu
E a vida já não é mais vida
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há estado, não há mais nação
Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais
Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d'aonde vem o tiro (2x)


* Isso mesmo, somente vi "TROPA DE ELITE 2" próximo ao Natal de 2010, depois de longa espera. Mas valeu a pena, ao final.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

SINCERAMENTE

Desde os dias de Michelangelo, os escultores escondiam os defeitos de seus trabalhos usando cera quente e pó de pedra para tapar eventuais fendas. O método era considerado trapaça e, portanto, toda escultura “sine cera” – ou seja, sem cera – era chamada de obra de arte “sincera”. A expressão pegou. Até hoje, usamos “sinceramente” para assinar as cartas, como uma garantia de que essas palavras são verdadeiras.
(BROWN, Dan – O Símbolo Perdido – Ed. Sextante – 2009 – pág. 345)

Milão é uma cidade que possui dois lados, um vermelho e um azul. Seria como gêmea univitelina da cidade gaúcha de Porto Alegre, que possui a rivalidade extrema entre o Grêmio e o Internacional. Sendo que no caso da cidade italiana estamos tratando do Milan, clube de futebol rossonero que já teve diversos jogadores brasileiros em seu elenco, e a Internazionale de Milão, que atualmente conta com Júlio César, Lúcio, Maicon e Philipe Coutinho dentre os representantes do talento verde-amarelo dentre os seus atletas.

Recentemente se juntou ao grupo desta última o ex-jogador Leonardo na qualidade de técnico. O detalhe é que até meados de 2010 ele era o treinador do arquirrival Milan, coroando uma carreira como atleta e dirigente daquele mesmo clube que chegou a alcançar, no total, mais de 10 anos de parceria. Será que tal alteração, radical para o padrão da paixão futebolística que envolve não somente o espírito brasileiro, mas nesse caso específico inclui os tiffosi italianos, seria aceitável, ou até mesmo benéfica para a carreira do brasileiro?

Um dos posts que gerou mais debates no Leopideas foi Razão, Paixão e Ética no Esporte (Out/2010). Naquela ocasião, vinculados à atuação e à controversa aparente decisão da seleção brasileira masculina de vôlei em perder um jogo propositalmente durante o Mundial realizado na Itália para alcançar os seus objetivos – no qual mais adiante tiveram êxito – enveredamos por uma discussão sobre gestão, administração e suas encruzilhadas. Neste instante chamo vocês a refletirem, então, para um outro aspecto vinculado ao cenário subjacente ao que foi exposto no início deste texto – gestão de carreiras.

Leonardo sempre foi um jogador diferenciado em seu meio, pela inteligência e educação adquiridas ainda jovem, por ter vindo de uma família de classe média. Não é a toa que no seu trabalho social após a aposentadoria como atleta ele se juntou a alguém com o mesmo perfil, como o ex-jogador Raí, na Fundação Gol de Letra. Ambos tiveram a oportunidade de se aproximar quando, após o surgimento do niteroiense como atleta do Flamengo no final dos anos 80, já no início da década de 90 terem sido contemporâneos no São Paulo e no Paris St. Germain. A transição de Leonardo para o clube paulista, além de respeitar os preceitos de oportunidade que surgem no mundo do futebol, também seguiu um caminho traçado para o seu aprimoramento profissional e humano.

O São Paulo, já naquela época, possuía uma das melhores estruturas do país como clube de futebol. Trabalhar naquele meio, em que pese doer no meu coração flamenguista, significava para Leonardo um upgrade em termos de ambiente de trabalho. Posteriormente continuou em seu caminho, indo para a Europa, onde atuou na França e na Espanha, vindo a se fixar por mais tempo na Itália e no Milan propriamente. Somente por esta passagem podemos nós imaginar o grau de cultura alcançado pelo jogador e o alicerce que propiciava para sua família. A administração da sua carreira seguia, então, a passos largos para ser coroada de sucesso.

Após um período que já apontava para o fim de seu ciclo como jogador, tendo também passado pelo Japão, jogando pelo Kashima Antlers de Zico, Leonardo tentou dar a sua contribuição final como atleta atuando pelo Flamengo, isso após uma polêmica decisão de abandono da seleção após a Copa de 1998, torneio este que imaginava como coroamento de sua carreira. Isto mesmo depois de ter se sagrado campeão mundial em 1994, porém, com uma expulsão que lhe tirou do restante daquele certame, o que obviamente o frustrou em termos de desempenho.

No entanto, em mais uma reviravolta surpreendente, surgiu-lhe a oportunidade de se juntar novamente ao Milan como jogador. Mas algo mais apontava no seu horizonte, e ele sabiamente não poderia deixar tal chance escapar: um contrato que lhe propiciava ao final um treinamento para atuar como dirigente de futebol na Europa, no próprio time milanês. E assim foi feito, a carreira administrativa seguia em bom ritmo, quando ao final da temporada 2008-2009 o Milan abriu-lhe as portas para uma nova empreitada, a de treinador.

Porém os italianos são tão apaixonados por futebol que tal qual no Brasil não possuem muita paciência com treinadores que não apresentam resultados consistentes. Ao final daquela mesma temporada Leonardo era demitido em meio a debates na imprensa com o presidente do clube, o não menos controverso Primeiro Ministro italiano Silvio Berlusconi. Fato é que durante aquele ano o time havia demonstrado um desempenho abaixo das expectativas, mas também considero que debitar a culpa disto somente ao treinador era um exagero. Com um elenco já ultrapassado e com peças apenas medianas, era difícil imaginá-lo com melhores resultados.

As inúmeras especulações a partir de então nunca redundaram em algo concreto. Leonardo permanecia fora do mercado esperando uma nova boa oportunidade para demonstrar suas qualidades. Certamente deve ter aproveitado este período para aprimorar seu conhecimento. A grande surpresa foi que esta chance que o aguardava era justamente no arquiinimigo do Milan, a Internazionale, supercampeã em 2010 – Italiana, Européia e Mundial.

Porém, o que mais me chamou a atenção foram as suas declarações para a Rede Globo logo após a entrevista de apresentação. Por diversas vezes pontuou sua fala com a expressão “sinceramente”, como se estivesse tentando, mais do que convencer o interlocutor, ainda convencer-se a si próprio que havia tomado a decisão correta. Ele agora estará, mais do que nunca, sob uma pressão enorme. Entrou num clube que conquistou praticamente tudo em 2010. Sinceramente, sei não, me parece que só tem a perder. Senão, vejamos... Se ele ganhar, poderá ter seus méritos debitados em favor de um grupo que já era vencedor, o que os minimizaria. Se perder, será mais um, assim como Rafael Benítez, a ter seus predicados contestados. E assim como Berlusconi, digamos que Massimo Moratti, Presidente da Inter, também não é reconhecido por sua grande paciência.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ENEM

Apesar de ser um assunto um pouco outdated pretendo discutir com vocês neste post o que se busca com o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o seu impacto sobre as escolas e os alunos. Pude perceber isso mais detidamente neste momento em que tive que escolher para a minha filha o novo colégio em que ela iria estudar, saindo da fase Creche-Escola após ter sido alfabetizada.

O ENEM se inspirou em sistemas existentes em outros países – Estados Unidos e França, por exemplo – em que uma série de provas é aplicada durante a vida escolar do aluno para verificar seu desenvolvimento, assim como dando-lhe pontos que servirão no futuro para o seu ingresso no nível universitário. A intenção, de uma certa maneira, era diminuir o nível de tensão existente no modelo de exame único, o chamado vestibular.

Porém, este objetivo seria secundário. O principal seria ter uma ferramenta facilitadora para a inserção das classes menos favorecidas no ensino universitário de alto nível. A lógica é que com exames realizados paulatinamente existiria uma concentração nas matérias exigidas distinta do vestibular, teste no qual os alunos sentiam que de uma vez só apostavam pelo menos os 11 anos de estudos pregressos de sua vida.

Aparentemente nenhum dos dois objetivos foi alcançado a contento. A diminuição da tensão não existiu, tendo-se apenas deslocado no espaço tempo. Agora temos tensão em distintos níveis escolares, quase como uma preparação para o vestibular em si. Vimos as mesmas cenas de sempre – alunos chorando porque o portão fechou, reclamando que a prova foi assim ou assado, etc.

E esta tensão foi transferida não somente ao ensino médio, como também ao fundamental. O ENEM se transformou num dos principais indicadores utilizados pelos pais para a definição da escola em que seus filhos estudarão. A lista de melhores colégios é esperada com ansiedade não somente pelos donos dos próprios, mas também pelos pais de maneira geral. Se perde, nesse caso, o melhor caminho para esta tomada de decisão: se a metodologia que a escola aplica, independentemente do resultado no ENEM, é a mais adequada para o perfil do seu filho. Será que uma criança de 06, 07 anos, deve ser submetida deste a sua infância à pressão por um resultado acadêmico elevadíssimo? Será que não se estaria perdendo a busca pela formação do cidadão em favor do estudante profissional?

Já em relação à facilitação ao ingresso das classes menos favorecidas nas melhores universidades a adoção de políticas alternativas pelo Ministério da Educação demonstra que o ENEM, como instrumento isolado, não alcançaria tal êxito. A própria política de cotas – que por si só daria um outro post – e o ProUni são exemplos de outras ferramentas em que se busca propiciar novas oportunidades para os estudantes de ensino médio.

Em relação à prova em si, tem sido pregado que o modelo que está sendo desenvolvido é o de gerar questionamentos que façam com que o aluno exerça sua capacidade de raciocínio, evitando a decoreba. Isso serviria para validar a fuga do fantasma do vestibular, que por muitos anos teve sua imagem impregnada pelas questões de múltipla escolha. Esta alternativa me parece adequada para um exame neste nível, mas para o vestibular em si, será que é a melhor opção?

E aí chegamos à questão final: existe um modelo melhor? Sou de uma geração que vivenciou a primeira vez em que o vestibular foi descentralizado. Passamos naquela ocasião então pela primeira oportunidade de se ter múltiplas opções. Poderia-se escolher a universidade A ou a B, ou prestar vestibular para ambas. As universidades assumiam, assim, na sua plenitude, a responsabilidade pelo perfil que desejavam para o seu corpo discente. A tensão, já acima discutida, era distribuída pela primeira vez em múltiplas provas, mesmo que todas no mesmo período de vida escolar do aluno, ou seja, ao final do ensino médio.

A caminhada em direção ao ENEM demonstra que aquele modelo foi analisado como insatisfatório. Uma das justificativas para o seu surgimento derivou do fato de que a descentralização do vestibular foi um dos fatores que incentivou a multiplicação do surgimento de instituições de ensino privadas muitas vezes sem o adequado nível para preparar o profissional para o mercado de trabalho, pelo menos em nível teórico. Havia então a necessidade de se criar alternativas à entrada nos melhores cursos.

Como disse anteriormente, este objetivo não me parece ter sido alcançado a contento. Mas também me parece que dificilmente teremos um modelo ideal. Na Argentina, por exemplo, não existe prova para a universidade. Os alunos se matriculam como se estivessem entrando num colégio e ponto. O Brasil, país de dimensões continentais, poderia abraçar algo assim? É pouco provável. Enfim, diversos métodos serão criados, defeitos e qualidades serão identificados, porém o principal para os pais é saber conduzir a educação dos seus filhos com a consciência de que estão criando bons cidadãos. Isso poderá lhes dar a devida certeza de que os seus rebentos saberão tomar decisões para o seu próprio bem, quando tiverem que alçar vôo solo.

Site acessado: www.mec.gov.br

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ALMOÇO, TABLETS E AFINS

No best seller “Comer, Rezar, Amar”, de Elizabeth Gilbert, publicado pela Editora Objetiva em 2008, a personagem principal – a própria autora – descrevia em suas 342 páginas o ano em que passou por uma “purificação” numa viagem ao redor do mundo. Dentre esses diferentes estágios de purificação, o primeiro se dá em torno da mesa, o que justifica o verbo comer do título.

Como nem todos podem usufruir do capital necessário para uma viagem ao redor do mundo, e como também a face boa da vida pode estar ali ao seu lado, um grupo de amigos que se reúna para almoçar com certa freqüência pode também ser considerado “purificador”, digamos. Eu próprio sou participante de uma confraria que serve de deleite a todos os convivas, mesmo com os preços estando os olhos da cara para se comer no Centro do Rio, o que poderia azedar o humor de qualquer um.

Este grupo possui diferentes variações, mas o núcleo central é composto pelos colegas da área de Comunicação, uma especialista em design apaixonada por seu iPad (1), e meus companheiro(a)s militantes da área internacional. Obviamente não existem regras rígidas – pelo menos por enquanto! – para a participação, valendo mesmo é o bom humor e a simpatia despertados among all of us!

A equipe de comunicação, comandada por Lúcia & os Marcelos – bom nome para uma banda de rockabilly (2) – tem sempre ótimas tiradas sobre o nosso cotidiano. As atribulações e agruras vividas por construir pontes comunicativas internas e externas chegaram ao ponto de gerar uma assombração – a Menina do Arame Farpado – com direito a perfil no Facebook (3) e tudo o mais que se possa imaginar. Este personagem aparece para assombrar a todos aqueles que duvidam de sua existência ou que sejam “malas”. Se o cara for mala e duvidar da existência dela ao mesmo tempo, o susto é certo, chegando ao ponto de dormir em casa e acordar em Conservatória, e sem direito a Wifi! Ou seja, para se comunicar ele terá que usar o único orelhão que existe no centro daquela pequena localidade, após uma espera considerável numa fila dos moradores que têm que falar com seus conterrâneos que se encontram em outras paradas.

A especialista em design atende pelo nome de Susana, e tem como maior companheiro de jornadas diárias o seu iPad. Ele é tão querido que se transformou num objeto de desejo de um dos Marcelos, que após uma longa campanha em prol de sua aquisição – ele chegou a trabalhar como voluntário na região serrana para ver se vinha algum nas doações – alcançou o seu intento em Janeiro/2011. Porém, como pão de pobre sempre cai para baixo, em seu apartamento a conexão é meio capenga. Ele só consegue ter uma razoável acessibilidade embaixo do armário da cozinha, quando este encontra-se com a porta aberta. O número de baratas aumentou um pouquinho, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena (e a conexão é de banda larga!).

Voltando à Susana propriamente dita, alguns debates foram entabulados em torno do iPad e sua utilidade. Eu próprio não estou muito convencido dela, mas como sou uma voz isolada no deserto, provavelmente acabarei adquirindo também um tablet, um belo dia, quando esta tecnologia já estiver ultrapassada. Mas deverá conter aplicativos Microsoft, afinal de contas eu sou um colonizado ou não sou!?

Minha resistência aos tablets se deve basicamente a dois fatores: sou muito apegado a teclados, e os modelos touchscreen não dão a mesma sensação de domínio da ferramenta. Mas aí me vejo envolto no seguinte dilema – se vou comprar um tablet com teclado, porque não adquirir logo um notebook???

E assim nossos almoços vão se repetindo, servindo para desopilarmos nossas neuras pessoais, instigando uns aos outros a buscar os mais diversos caminhos da felicidade. Estamos agora lutando para que Susana dê início ao seu blog sobre Design. O problema é que ela já queria partir tendo o status da Cora Ronái, com direito a testar os produtos sobre os quais ela escreveria. Explicamos para ela que para chegar a esse ponto ela teria que ter anos de estrada e uma superexposição que somente com o suporte da grande mídia ela alcançaria. Ao cair a ficha ela ficou um pouco desanimada, mas nós continuamos dando dicas a ela, incentivando-a via Facebook ou pessoalmente, sobre temas interessantes para os quais ela poderia escrever, tais como “Jegue ou Cavalo”, “Fusca ou Porsche”, “São Paulo ou Niterói”, “Maradona ou Pelé”, etc. O que isto tem a ver com design? Sei lá, nós não somos os especialistas. Ela é que tem que dizer! Precisamos marcar um almoço para discutir isso.

Fontes acessadas em 07/Fev/2011:

(1)     iPad = A grande novidade trazida pela tablet da Apple é a tão falada convergência das mídias. Em outras palavras, este novo produto agrega as principais funcionalidades de equipamentos já conhecidos, como notebooks, netbooks, PDA, smartphones e e-readers. Com isso, é possível ler jornal, revistas, livros, assistir a programas de TV, jogar games e navegar na internet através de um único aparelho e com total comodidade. É praticamente uma revolução na informática, tornando-a ainda mais multimídia e reinventando o modo de adquirirmos e utilizarmos conteúdo digital.
Comentário pessoal: mas ele não funciona como celular! Quando eu coloquei isso um dos Marcelos afirmou: “Claro, Léo, imagina só o ‘orelhão’!” Para mais detalhes sobre os novos tablets concorrentes do iPad ver Info – Fev/2011 – Ed. Abril – págs. 12-14.
(2)     Rockabilly = Esse som novo, ou essa centelha de espontaneidade criativa, aconteceu na madrugada de 5 para 6 de julho de 1954 no estúdio da Sun Records em Memphis, Tenesee, quando Elvis Presley tocou, num ritmo frenético, um conhecido Blues de autoria de Arthur Crudups, That's All Right, Mama. Scotty Moore na guitarra e Bill Black no baixo o acompanharam na brincadeira e deixaram Sam Phillips de queixo caído com o resultado. Sam, entusiasmado com o que ouviu, preparou o gravador e pediu que tocassem novamente. Assim foi gravado o primeiro Rockabilly da história. O single That's All Right foi lançado nas rádios locais como lado "A" e Blue Moon Of Kentucky no lado "B".

(3)     Facebook = O Facebook é uma rede social. É um site onde cada pessoa pode ter o seu perfil, ou seja, os seus dados pessoais, as suas fotos, videos, links, notas etc.  Os membros desta rede social, como aliás de todas as outras, interagem entre si, visitando os perfis, fazendo amigos, estabelecendo contactos, deixando comentários, enviando mensagens entre si, numa palavra, comunicam.
Comentário pessoal: acho que todo mundo hoje em dia sabe o que é o Facebook. Mas não resisti a essa simplicação. Para verificar como ele já transcendeu esta definição sugiro ler a Info – Fevereiro/2011 – Ed. Abril.
Fonte: http://www.portais.ws/?page=art_det&ida=1202

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

No dia 31 de Dezembro de 2010 o então Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, decidiu-se pela permanência do italiano Cesare Battisti em território brasileiro, em que pese a acusação por parte do Governo da Itália de que se trata de um terrorista procurado naquele país. Tal decisão teve como base o aconselhamento jurídico de um parecer da Advocacia Geral da União (AGU) a partir do momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF), mesmo tendo autorizado a extradição, delegou a decisão final à Presidência, aparentemente em função do tratado existente entre os dois governos em questão.

Não conheço o tratado em si, por isso a minha análise sobre tal fato estará, de certo modo, capenga. Porém, tentarei avaliar essa situação sobre diferentes prismas, revelando inclusive meu insight pessoal, deixando ao bel prazer do leitor a chegar a suas próprias conclusões – como se isto não fosse um direito inerente ao mesmo. Perdoem-me! De vez em quando sou tolo por demais!

Minha percepção particular, depreendida como primeira reação ao tema quando tomei conhecimento deste, a partir de 2007, quando do encarceramento do Sr. Battisti pela Polícia Federal enquanto transcorria o julgamento do processo de extradição, era de que devíamos devolvê-lo à Itália. A César o que é de César, como diziam os antigos. Este era um problema italiano, ele já havia sido julgado em sua terra natal por crimes cometidos por lá, e não creio que seja adequado que adotemos uma postura “corretora” para problemas de terceiros.

Porém, esta primeira avaliação, quando aprofundada, carece de uma sustentabilidade. Se eu fosse expandir essa minha análise para todas possíveis situações similares, pretéritas e futuras, acabaria por cair em contradição ou ficaria em maus lençóis se resolvesse sustentá-la. Digamos que descobríssemos uma situação à época do Governo de Hitler, em que um alemão, de origem judia, que havia fugido da Europa, estivesse aqui no Brasil. A seguir meu raciocínio acima explanado, deveria eu defender sua devolução para seguir com seu julgamento pela sociedade alemã. Algum tipo de comparação com Olga Benário lhes vem à mente?

A alegação situada no contexto acima apresentado de que estaríamos tratando de repatriamento de um militante de esquerda para as mãos de um governo de direita caem por terra, porém, quando percebemos que desde o julgamento do Sr. Battisti na Itália muitos anos se passaram. Ele se encontra em terras brasileiras desde 2003, pelo menos, tendo antes fugido para a França, que já havia dado asilo político a diversos extremistas italianos. A cultura de certa forma esquerdista de diversos governos franceses parece corroborar sua conduta, assim como a do nosso próprio Ministro da Justiça no mandato de Lula, Tarso Genro, que quando instado à época optou por conceder o status de refugiado político ao italiano, complicando toda a equação.

O suceder de governos em países de cultura democrática tem como um de seus preceitos basilares a independência entre os poderes. Isso permite que uma decisão do Judiciário, em tese, uma vez transitada em julgado, seja respeitada por todos os governos, independentemente de suas cores e credos. Dessa forma, tendo sido Battisti julgado definitivamente no passado e considerado culpado pelos magistrados italianos, tal decisão deve ser respeitada por todos os governos daquele país a partir de então. Porém, um outro complicador deste problema é que não somente a Itália tem uma tradição majoritária de direita, como o atual governo, com Berlusconi a frente, pode ser considerado de extrema direita!

Dessa forma, temos a seguinte situação: (1) um condenado pelo Judiciário Italiano em terras brasileiras; (2) este condenado é considerado oficialmente um refugiado político pelo Governo Brasileiro; (3) um tratado de extradição entre os dois governos existe, porém a AGU, em sua interpretação, considera que este está sendo respeitado quando a Presidência da República nega o repatriamento por avaliar que existem lacunas no processo original que ainda não foram sanadas, o que não daria segurança de que o italiano em questão seria julgado com isenção quando retornasse ao seu país.

Infelizmente estes três fatores não serviram para alterar minha impressão inicial. Talvez a figura verborrágica de Battisti, nas poucas cenas repetidas inúmeras vezes na TV brasileira, tenha me dado uma sensação desagradável de prepotência, de imposição de idéias, que no limite típico dos extremistas poderia levar até mesmo a atentados terroristas, ações que repudio. Também não me agrada em nada a sensação de ter que defender uma postura estilo Pilatos – lavar as mãos, mas devo ser sincero, essa seria minha opção pessoal, sem ter conhecimento das minúcias do caso. Ou seja, que os italianos e sua Justiça sejam responsáveis por seu próprio problema.

Aparentemente a dificuldade de Lula, por todo o seu passado, em defender a permanência do italiano no Brasil, estaria calcada no fato de ter que contrariar o desejo explícito de um governo com o qual o Brasil mantém relações. Por isso se escorou no parecer da AGU, meio que a justificar sua decisão. Talvez eu tivesse adotado a mesma postura, por motivos diversos e com finalidade distinta. Pergunto-me: será que houve uma pergunta do tipo: “Presidente, qual é a posição que o senhor deseja? Nós a corroboraremos, qualquer que seja”. Nunca saberemos isso de fato. As leis têm interpretações diversas, algumas vezes nos parecem que foram construídas para isso. Cabe ao ser humano ter a consciência tranqüila de que tomou a melhor decisão com as variáveis que tinha a sua frente. Sentar na cadeira de presidente não deve ser fácil...

Sugestão de Leitura:

MORAIS, Fernando – “Olga” – Ed. Cia das Letras – 1994 – 263 págs.

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