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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

THOR E CAPITÃO AMÉRICA

Se aproxima a época da folia momesca e nada melhor do que falar de dois super-heróis. Afinal, se é de fantasia que o povo precisa, não existe melhor inspiração.

Em verdade, assisti recentemente estes dois filmes por conta de minha preparação para assistir “Os Vingadores”, que deve estrear ainda este ano, reunindo estes supracitados no título do post a Hulk e Homem de Ferro, para falar somente dos mais conhecidos, sob o guarda-chuva da Shield (escudo), uma organização que lutaria contra malfeitores de toda espécie. Mas este é um post para o futuro. Vamos falar isoladamente destes dois heróis.

“Thor” (2011) tem como personagem central um super-herói saído das lendas nórdicas. Seria o Deus do Trovão, filho de Odin, irmão de Loki. No início da película, ambos irmãos, ainda meninos, ouvem de Odin sobre a grande tarefa que terão pela frente quando herdarem o reino de Asgard (1). Este seria um dos noves reinos que conformariam a estrutura planetária básica em torno da qual giraria o universo. A Terra seria outro desses reinos, por assim dizer.

Ora, para uma trama que envolve traições dentro da realeza, além de sentimentos de lealdade entre cavaleiros que cresceram juntos, para enfrentar uma derradeira batalha longe dos seus domínios, ou seja, um enredo muito próximo do universo shakesperiano, nada melhor do que convidar um diretor com experiência no gênero. Nesse sentido os produtores acertaram em mão cheia, pois Kenneth Branagh (2) tem em sua biografia inúmeros trabalhos de sucesso tendo como base o bardo inglês, tais como “Henrique V” (1989), “Muito Barulho Por Nada” (1993), “Othelo” (1995) e “Hamlet” (1996).

Dessa forma, o tom cadenciado de uma obra do grande autor é transposto para os personagens mitológicos escandinavos. Um pouco se perde, em favor da ação e da comédia, na segunda parte do filme, mais focada, aí sim, na caracterização de herói dos quadrinhos tendo que salvar os terráqueos de mais uma ameaça. Um amigo meu fez uma crítica adicional ao filme que foi o fato da atriz Natalie Portman, posteriormente consagrada por sua atuação em “Cisne Negro” (2011) ter sido subutilizada. Ambos os aspectos podem ser debitados, porém, a necessidades práticas. A faceta caricatural de Thor era necessária até mesmo para uma ponte futura com os Vingadores e seu relacionamento contínuo com a realidade dos meros mortais. Ou seja, ele não viveria eternamente em seu reino de deuses com poderes sobrenaturais. Já Ms. Portman (3) ainda não tinha desabrochado para os holofotes, e sua função no filme era mesmo de ser um chamariz romântico para o astro principal da história, e não para ofuscá-lo.

Já em relação ao “Capitão América” (2011) existe um ganho na clarividência imediata para o telespectador, qual seja, este não é enganado pensando em que vai receber uma coisa e recebe outra (4). Desde o princípio o mote principal do filme é retratar o esforço norte-americano durante a 2ª Guerra Mundial tendo como base o estereótipo do super-soldado – gancho para a criação do personagem principal, interpretado por Chris Evans, o mesmo ator que interpretou Tocha Humana (5) do “Quarteto Fantástico” (2005).

Dessa forma, a ênfase na caricaturização do ambiente, típico do folhetim que lhe deu origem, com um vilão – o Caveira Vermelha – identificado desde seu início para fazer o contra-ponto, com sua ambição desmedida – ser o dono do mundo! – em favor de um personagem caracterizado como um homem bom, de coração puro, é nada mais nada menos a corrente que prende os fãs das novelas – a eterna luta do bem contra o mal, mocinho e bandido, bonito e feio, etc. Se alguém vai esperando algo mais desse tipo de filme, esqueça, coloque a pipoca para esquentar e relaxe! E, como tem sido típico nas sagas dos heróis da Marvel na telona, não deixe de assistir as cenas extras pós-créditos. Costumam reservar as melhores surpresas – isso sem falar em que fazem a devida amarração entre os universos dos distintos heróis. Se vocês fossem me perguntar se valeu a pena, então, devo dizer apenas que estou doido para que os Vingadores estréiem. O que vocês acham?

(1)    Para mais detalhes ver http://www.adorocinema.com/filmes/thor/ .
(2)    Para mais detalhes ver http://www.imdb.pt/name/nm0000110/filmotype .
(3)    Para mais detalhes sobre Cisne Negro ver http://www.cinepop.com.br/filmes/cisnenegro.php

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

MOURINHO

“MOURO adj. e s.m. (Do lat. maurus) [...] 2. Na Idade Média e no Renascimento, os sarracenos que conquistaram a Espanha e Portugal. [...]”
Fonte: Grande Enciclopédia Larousse Cultural – pág. 4108 – Ed. Nova Cultural – 1995

José Mourinho, o polêmico treinador português, vem fazendo de sua trajetória à frente do Real Madrid uma verdadeira cruzada contra o time que vem dominando o cenário internacional, o Barcelona. Seria uma batalha perdida? A história do futebol diz que não, pois é mais do que normal que de tempos em tempos uma equipe se sobressaia e acabe deixando as demais como meras coadjuvantes. Mas esse tempo passa, e é bom estar preparado para ocupar esta lacuna.

A diferença é que aparentemente pela sua qualidade como treinador Mourinho não tem muita paciência. Na sua primeira empreitada a frente do Porto, de Portugal, conquistou a Liga dos Campeões da Europa – num time que tinha, entre os brasileiros, Carlos Alberto (ex-Flu, Vasco, Bahia, Grêmio, Botafogo, Corinthians, São Paulo - ufa!) e Diego (um dos meninos da Vila, da geração do Robinho) – e o Mundial Interclubes. Depois se transferiu para o Chelsea, colocando o time inglês no patamar dos gigantes, com uma boa ajuda dos cofres de um magnata russo. Por último, antes de chegar no Real, fez da Inter de Milão novamente campeã da Europa, após uma sucessão de títulos italianos. Ou seja, é um cara que busca incessantemente suas metas, e normalmente as alcança.

Por isso tudo que lhes disse acima, e não pelos destemperos em seus tempos de Espanha – com direito a dedo no olho do auxiliar-técnico do Barcelona! – é que Mourinho era o meu favorito para ser o técnico da Seleção Brasileira pós-Dunga.

Esperem, quando digo isto coloco um cenário o qual poderíamos escolher qualquer um. Num contexto mais, digamos, “realista”, eu havia imaginado o Muricy para o lugar. E quase que emplaco essa aposta. Porém o atual treinador dos Santos fez forfait – se proposital ou não, usado de artifícios escusos ou não, é uma discussão para outro momento – e não assumiu este desafio. E aí está o meu gancho para justificar o que escrevi no parágrafo anterior.

Quando o cargo de treinador da seleção ficou vago, após a Copa de 2010, comecei a fazer um exercício mental de quem teria coragem e estaria mais talhado para dirigir o Brasil numa Copa a ser realizada por aqui mesmo. Teria que ser alguém especial, pois a pressão seria enorme, a crítica seria implacável durante o período de preparação, tamanha a expectativa gerada. Não importa se estamos ou não passando por uma entressafra, um novo 1950 é inaceitável para os brasileiros!

Pois bem, tendo isso em mente perguntei-me: “Por que não um treinador estrangeiro? Um olhar de fora, alguém que não se sentiria tão apegado às paixões ou mesmo à responsabilidade seria o ideal”. O problema de imediato que me surgiu foi a questão do idioma. Porque a arte de domar 23 jogadores de futebol de alto nível é, mais do que simplesmente passar a tática específica para o jogo, é demonstrar a paixão e o sentimento que o cerca no discurso a ser conduzido pelo treinador para com os treinandos. Nisso o Joel Santanna é um mestre, e a campanha da África do Sul na Copa das Confederações de 2009 não me deixa mentir. Quem poderia ultrapassar estas barreiras, então?

José Mourinho era a solução! Treinador de altíssimo nível, falava português, estudioso e ao mesmo tempo tinha a paixão necessária para passar o combustível que a equipe canarinho necessitaria para enfrentar tudo que viria pela frente até 2014, pensei eu à época. Perguntariam vocês: mas e o salário? Ora, eu é que lhes pergunto: será que ele não aceitaria um desafio profissional como esse – ser campeão mundial dirigindo a Seleção Brasileira, numa Copa no Brasil???? A perspectiva de ser campeão – algo que a Seleção Portuguesa, a qual ele não aceitou dirigir, não dá até o momento – certamente seria um fator em termos de diferencial para ele aceitar uma remuneração um pouco mais baixa. Porém, aparentemente tal idéia não passou na cabeça de nenhum dirigente. É pena, mano, porque nossa vida promete ser dura até 2014.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

JOHN E O JACARÉ AMARELO

Sonhos são manifestações do inconsciente sobre temas os quais guardamos para nós mesmos, normalmente. Porém, para aqueles com alguma necessidade de interpretação – quer seja por curiosidade, quer seja por motivos profissionais – eles parecem sim ser algo muito doido em seus enredos. Na noite anterior em que escrevo estas linhas tive um daqueles, o qual passo a narrar:

Eu e minha esposa havíamos sido convidados para um final de semana prolongado na casa de veraneio de Susana, que ficava no litoral da Bahia. Chegando por lá na véspera do início do dito período, e como a anfitriã já tinha reservado outros quartos para outros hóspedes, pernoitamos na sala mesmo – imensa, com um sofá em L no canto. Muito chique, era de muito bom gosto, como é peculiar na minha amiga Desenhista Industrial.

No meio da noite ouço uma voz como a me convidar para jogar frescobol. Isso mesmo, bem no meio da sala. Ora, é um sonho, então tudo é possível. Passo a jogar com alguém que não aparece na penumbra do outro canto da sala. A bola vai e vem e tenho pleno domínio do jogo. Para alguém tão desastrado como eu, somente em sonho mesmo. Pergunto o nome da pessoa que está jogando comigo e ele se identifica como John Ritter.

Curiosamente Ritter é o sobrenome de família, por parte materna, do meu pai. Peço uma prova de que ele é realmente bom de mira. O porquê, sei lá. Ele atira duas flechas. Ambas saem do mesmo canto, na mesma penumbra, não dando para ver sua origem, e se alojam na mesinha de canto, no eixo do supracitado sofá em L.

Pela manhã, consulto Susana sobre a existência do tal John Ritter, o qual ela desconhece. Me traz então as regras da casa – algo como uma convenção de condomínio – para ver se ajuda na minha investigação. Me chama a atenção que o andar superior da casa é reservado para os empregados. Moderna e muito chique a minha amiga. Acho que ela tem a pretensão de distribuir iPads para todos da comunidade. Está esperando apenas um patrocinador, via Lei Rouanet.

Reclamo que aquele texto, conforme apresentado, estava muito “quadrado” no que diz respeito a sua apresentação, levando-se em conta o perfil de Susana. É o que os especialistas chamam “Efeito Moerbeck” – uma vez atingido este nível, não há como retroagir, sob o risco de virar chacota pública. Digo a ela com todas as letras: - “Susana, índice é coisa antiga. Vou lhe dizer como leio um texto, qualquer que seja: vou lendo; caso chegue a um ponto eu que eu acho ele chato – ‘boring’ – aí sim procuro o índice para ver se existe algo que se possa aproveitar naquela obra”. Acredito que eu tenha quisto dizer que escritor que se preze, se garante e não coloca índice.

Como aquele texto não adiantou nada para elucidar o mistério do fantasma Ritter, Susana chama por seu marido, que atende pela estranha alcunha de Olhento. Não sei a origem do nome, provavelmente deve ser holandesa. Não Susana, é um sonho, mas ele não tinha a cara do Brad Pitt. Tava mais para Francisco Cuoco – “dinheiro na mão é vendaval” – com bigodinho e óculos de grau. Ok Susana, eu sei que o Brad Pitt já fez personagens assim, mas definitivamente não era ele. Se contente com o Chico, ou melhor, o Olhento. Ah, ele não sabia nada sobre o tal de John.

Vou então passear próximo ao lago que fica dentro da propriedade, em frente à casa – já falei que Susana é muito rica, né!? Porém, uma força estranha me agarra e me joga para dentro do lago. E adivinhem: nele habita um jacaré amarelo!!!!!! Não é do papo amarelo, é amarelo mesmo! E com uma cauda bipartida. Pensei que iria virar comida de jacaré, sacanagem do John – só podia ter sido ele – me jogar dentro do lago! E o jacaré era imenso. Mas o cachorro de estimação da Susana salta no lago para lutar com o dito cujo. Consegue distraí-lo, mordendo e rosnando para a tal cauda. Não a dele, a do jacaré, a bipartida. Aí descubro que a cauda, em cada ponta, tem uma cabeça diferente!!!!! A cabeça do cachorro da Susana vira uma cabeça de leão!!!! Tudo muito louco, mas o que interessa é que consigo escapar.

Naquela noite tenho um sonho. É isto mesmo: um sonho dentro do sonho. Sonho que conheço um Padre, tipo do filme “Padre”, justiceiro que só (1)! Este padre tem uns super-heróis que ele carrega dentro da batina. Não são bonecos, são, sei lá, almas fortes para chuchu, com roupa de super-herói. Eles se prontificam a destruir o tal do John Ritter. Para isso o Padre decide ir por um caminho, no meio de uma floresta. Só que, como tava muito calor, ele decide que não é hora de liberar os amigos super-heróis. Guarda a batina e monta no cavalo – como se fosse um caubói – para ir atrás de um cortejo fúnebre. Este é composto por um carro com 4 cavaleiros, 2 de cada lado. O problema é que quando o padre tira a batina, ele fica só de cueca. Isso é lá jeito que se apresente um padre!!!! De cueca e chapéu de caubói!?

Pela manhã, quando acordo, conto este sonho para todos os convidados da casa. Todos riem e falam para deixar essa estória de John para lá. E a partir daí aproveitamos o fim de semana prolongado na Bahia.

Conclusões a que chego:

(a)    John Ritter é um pé no saco. E eu não conheço nenhum John Ritter;
(b)   Padre de cueca e chapéu de caubói só na Bahia mesmo;
(c)    Me amarro no cão de estimação da Susana;
(d)   Que diabos eu comi no dia anterior deste sonho???

(1)    “O mundo foi devastado por uma guerra entre humanos e vampiros que durou séculos. Com o final do combate, um Padre Guerreiro foi forçado a viver escondido entre os cidadãos comuns em uma cidade completamente controlada pela Igreja. Mas tudo muda quando sua sobrinha é sequestrada por um grupo de sanguinários vampiros, que estão voltando a atacar após o breve período de paz. Contrariando as ordens da Igreja, o Padre parte em busca de sua familiar, contando com a ajuda do namorado da garota e de uma poderosa Padre Guerreira, especialista em combate”. Para mais detalhes ver http://www.interfilmes.com/filme_17191_priest.html . O filme é de 2011.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CUBA

Cuba me intriga. E acho que ela é mesmo intrigante para aqueles que não mergulham verdadeiramente na sua história. Infelizmente sou um deles. Meu contato com esta ilha caribenha – à parte aspectos profissionais da área de cooperação internacional – se restringe a duas características: sua política esportiva e a “teimosia” de vida de Fidel Castro.

Os comunistas vão me execrar pelo que vou dizer, mas desde a época do Mestrado, quando pela primeira vez vim avaliar seriamente a dinâmica capitalista, que não vejo como esta ser sobrepujada por quaisquer outros regimes. O capitalismo tem diversas facetas, mas a principal delas, a que garante sua permanência como principal modelo de governo no mundo, é a sua capacidade de adaptação a diferentes contextos.

Economias distintas – e hoje as mais distantes são Cuba e a Coréia do Norte – vivem a meu ver um falso hiato em suas trajetórias não capitalistas. A guinada para um modelo dito de “esquerda”, até o ponto que tais conceitos ainda prevalecem, foi na verdade uma necessidade de rearrumação por conta da existência de governos autoritários de “direita” que ultrapassaram os limites da decência. Porém, quando eu falei em conceitos, direita e esquerda são balelas. Autoritarismo pode surgir em quaisquer governos, não importando suas matizes. O capitalismo, senhoras e senhores, entendo como o modo de viver que a humanidade identificou com o intuito de organizar suas relações em sociedade. E mesmo o comunismo é apenas uma vertente do capitalismo! Eu lhes disse que os comunistas iriam ter problemas com o meu discurso!

Óbvio que o exemplo mais claro que surge às mentes de todos é a China. Os chineses têm como característica uma paciência enorme para negociar. A essa paciência, por conta da experiência acumulada, acresce uma sabedoria ao observar as tendências em seu entorno que podem lhe ser benéficas. No passado, viveram como uma monarquia feudal, pois este era o modelo prevalecente. Quando imaginaram, num mundo bipolar, que para manter sua força política e capacidade de interferência nos rumos do mundo, deveriam ser vistos como uma economia comunista, logo surgiu um movimento para implantá-lo. Mas não hesitaram, quando perceberam que era chegado o momento de darem o grande salto, em se voltar para o capitalismo – que de uma certa maneira sempre esteve lá presente, porém escondido, a espera de uma oportunidade para se explicitar. E esta veio a surgir paulatinamente, primeiramente como estabelecimento das chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEE’s).

Cuba, nesse sentido, é dissonante do seu irmão oriental por padecer do que eu chamei acima de “teimosia” de Fidel Castro. Após reverter um caos social que a população sofria nas mãos de Fulgência Batista, na década de 50 do século passado, Castro deve ter tido inúmeras oportunidades, até pela proximidade geográfica, de se adaptar aos novos tempos que se aproximavam. Talvez quando da queda da União Soviética tivesse sido o maior deles. Mas ele “teimou”, empacou na lógica de que o modelo de gerenciamento estatal que eles haviam adotado ainda poderia prevalecer num contexto de um mundo globalizado, no qual o capital circulava a procura de oportunidades. E eu não estou aqui falando do capital oportunista, mas sim aquele que realmente busca fincar raízes num determinado lugar, gerando produção e bem estar social ao aumentar as possibilidades de sustento e escolha daqueles que nele se integram.

Aparentemente, ao se aproximar da curva final em sua vida, Castro teria indicado que pequenas adaptações seriam necessárias se ele quisesse deixar um legado verdadeiro para o povo cubano. E para isso colocou seu irmão para desenvolver tal missão. Desta forma observamos as mudanças que pouco a pouco vão sendo vividas na ilha. É claro que não se deve negligenciar a importância da entrada do governo de Castro no cenário internacional, como já sinalizado anteriormente, que foi a de extirpar um governo autoritário que estava explorando demasiado o povo. Mas ele, ao ir ao extremo oposto, também parece ter virado o fio.

Querem um exemplo disto: as constantes deserções de esportistas cubanos com o passar dos anos. Isso tendo uma política esportiva decantada como sendo de inserção social, por resgatar talentos da massa, retirando-os de uma vida de dificuldades para lapidá-los para serem ícones internacionais – em que pese poder sofrer uma crítica por terem se transformado em bandeiras políticas, algo que eu relativizo, pois os americanos também o sabem explorar, de modo mais sutil, o enaltecimento do seu “way of life”, quando seus atletas alcançam o estrelato. Mas a questão é: se o comunismo fosse realmente um modelo de sucesso absoluto, haveria a necessidade de resgate de pessoas para uma vida de privilégios num determinado nicho de competência?

Pois bem, para citar apenas um exemplo, nos últimos anos temos visto alguns jogadores de vôlei cubanos – masculino e feminino – buscando atuarem em campeonatos profissionais de outros países, inclusive na Superliga brasileira, e de maneira legítima, sem serem vistos como desertores. Como isso se dá: o Governo Cubano estabeleceu a regra de que eles devem ficar pelo menos dois anos inativos para serem então inseridos no mercado internacional. Como tem sido grande a quantidade de casos nesse sentido, parece-nos que eles consideram esse um preço razoável a pagar para alcançarem... a liberdade.

Taí, talvez seja esse o segredo de Cuba. Sua política e sua economia viveram dias de exploração extrema por um governo dito de direita, “capitalista”, depois anos de dependência extrema comunista – subsídios soviéticos à produção de açúcar, por exemplo – para então passar a viver num descompasso do tempo pelos últimos 20 anos, como que a espera de ter, finalmente, uma liberdade que nenhum dos modelos vividos pela sua população até então lhes deu verdadeiramente. Como eles puderam suportar isso durante tanto tempo? O povo cubano, enfim, é o grande herói desta história. Deve-se sempre respeitar suas escolhas. Mas que é intrigante, ah, lá isso é.

sábado, 14 de janeiro de 2012

PERCY JACKSON E O LADRÃO DE RAIOS

Vamos deixar bem claro: eu não acredito em duendes. Aliás, eu estou muito mais para um adesivo que vi um dia estampado num carro: “Eu atropelo duendes”. Mas a minha paixão pelo cinema ultrapassa preconceitos, e creio mesmo que esta seja uma das principais serventias da sétima arte, a de derrubar barreiras.

Nesse sentido me vi curioso em assistir “Percy Jackson e o Ladrão de Raios” (2010). Não tinha a ilusão de que seria um filme que me satisfaria por completo, mas que poderia pelo menos cumprir com a máxima de que “cinema é a maior diversão”. O assisti ao final de uma segunda-feira de carnaval, afinal, para aqueles que me conhecem, já o sabem que não sou muito chegado aos festejos momescos, e a perspectiva de ter uma programação interessante na TV no mesmo horário do desfile das escolas de samba me dava um alento.

Outro fator que me chamou atenção foi a participação de Pierce Brosnan. Ator que já viveu o personagem James Bond no cinema, entre outros filmes interessantes – do qual me encantou particularmente o musical “Mamma Mia!” (2008) em que contracenou com Meryl Streep – acabou gerando uma expectativa positiva adicional. Infelizmente sua participação neste filme foi tremendamente apagada, num personagem por demais secundário. Como esta película promete ser apenas a primeira de uma série, esperemos que nos demais filmes sua participação cresça em importância e ele possa demonstrar suas qualidades enquanto artista, de maneira mais densa.

Retornando ao Percy Jackson. O filme efetivamente distrai, mas tanto quanto um bom filme da Sessão da Tarde. Não pagaria para assisti-lo na sala de cinema, e como o fiz no recesso do meu lar, relaxado, acho que cumpriu sua missão. Mas não mais do que isso. Porém ele tem um mérito particular que ultrapassa os demais filmes do gênero fantasia pré-adolescente (nos quais incluo os Harry Potter e Crônicas de Nárnia da vida): o fato de tratar da mitologia grega. Isto é, culturalmente ele se presta a atrair a atenção do público infanto-juvenil para um tema que normalmente não circula em suas rodas.

Mesmo a trilogia blockbuster “O Senhor dos Anéis” (1), iniciada em 2001, que tem como qualidade acender a chama para a obra de J.R.R. Tolkien, ou seja, também contribui para o crescimento cultural dos jovens – a obra de Tolkien é um clássico da literatura que teve sua primeira edição em 1954 – trata de mitos imaginários, gerados exclusivamente da mente de autores voltados para atender a um público específico. Quando falamos da mitologia grega, pelo contrário, estamos falando de aspectos que influenciaram toda uma geração da humanidade, e que tem reflexos na sociedade ocidental até hoje.

Deve-se ressaltar que a mitologia em si é o estudo dos símbolos e de sua representação para a sociedade. O mito ressalta determinados aspectos de nosso viver, facilitando nossa compreensão do todo. Quando tal sutileza se insere na religiosidade, temos uma força que se solidifica na fé gerada no seio de seus seguidores. Compreender a influência que determinados mitos tiveram no passado da civilização tal qual como a concebemos hoje em dia pode nos facilitar em nossa caminhada para sermos seres humanos melhores. E o cinema pode ser uma boa porta de entrada.

Essa centelha, plantada por filmes como Percy Jackson, acaba sendo sua verdadeira “mais valia”. Para tocar num único exemplo deste filme, de maneira leve ele já nos leva a avaliar a relação entre pais e filhos, tema recorrente da mitologia grega quando trata da convivência entre os deuses e seus rebentos com os meros mortais, dentre eles o mais famoso sendo Hércules (Percy Jackson, o personagem central, seria filho de Posseidon, o Deus dos Mares).

De toda forma, mesmo com este argumento, ainda não foi desta vez que fui cooptado pelo universo de seres mágicos. Continuo tendo preferência por um bom faroeste e pelos filmes de ficção científica, além de outros tantos em outros gêneros, mas que vêm baseados num roteiro que lhes sustente, acompanhados de um diretor que faça com que sua mensagem chegue na tela e nos toque de tal maneira que saiamos da sala escura envoltos em seu clima. Enfim, o raio não me atingiu, vai ver por ter sido roubado de Zeus, mote principal do filme. Quem sabe, então, numa próxima oportunidade sou encantado pelos mitos e suas fragilidades.

(1)    Sendo transparente: não vi nenhum Harry Potter em sua totalidade – apenas pequenos trechos; os filmes da trilogia “O Senhor dos Anéis” eu me recuso a ver enquanto não tiver lido o livro; e dos filmes de Nárnia, assisti somente o primeiro – “O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa” (2006).

Leitura sugerida: “O Poder do Mito” – Bill Moyers entrevista Joseph Campbell – org. Betty Sue Flowers – Ed. Palas Atena – São Paulo – 1990 – 250 págs.

Fontes (acesso em 08/Mar/2011):

domingo, 1 de janeiro de 2012

A CABANA

Comecei a ler o livro “A Cabana”, de William P. Young – Ed. Sextante – 2008 – 238 págs. – no final de março/2011. A expectativa em torno do mesmo era grande, uma vez que era um dos Best Sellers já há algum tempo. Mais do que isso, como havia passado por momentos de grande introspecção e reflexão sobre a vida, achava que ele poderia apontar mais uma visão útil sobre a mesma.

Comecei a leitura enquanto viajava a trabalho, o que por si só serviu como uma abertura para um espaço reservado para a concentração sobre o seu conteúdo. E é engraçado, porque recentemente recebi algumas críticas por essa minha mania de “concentração” para fazer as coisas, deixando a flexibilidade de lado. E de uma certa forma, uma das mensagens do livro – são inúmeras – é justamente essa: sermos mais flexíveis uns para com os outros. Assim, entendo que esta resenha se presta perfeitamente como texto de início de ano.

Voltando ao impacto do livro em si. Como disse andava muito reflexivo há época em que comecei a lê-lo. Como já tinha uma outra leitura engatada preferi deixá-lo de lado, o que devo confessar gerou-me uma sensação de certa alívio. Isto, credito, ao fato dele iniciar tocando em determinadas feridas as quais não queria cutucar naquele momento. E para tanto, ele usa de uma situação de extremo peso para o leitor.

Apenas para vocês terem uma idéia vou reproduzir aqui o primeiro parágrafo da orelha:

Durante uma viagem que deveria ser repleta de diversão e alegria, uma tragédia marca para sempre a vida da família de Mack Allen: sua filha mais nova, Missy, desaparece misteriosamente. Depois de exaustivas investigações, indícios de que ela teria sido assassinada são encontrados numa velha cabana.

Ora, para quem possui filhos a estória já seria por demais pesada. Para quem possui uma filha, pequena, mais ainda. E para quem está reavaliando valores de sua vida – e em como esta pode parecer ingrata ou dura de vez em quando – pior seria. E eu me encaixava nas três situações naquela ocasião.

O ano de 2011 passou, e foi um ano pesado, eu diria. Muitos embates, reviravoltas, soerguimentos, novos tombos, novas reflexões, o buraco se abrindo novamente, uma luz que se aproxima, saídas pela esquerda, pela direita, em pé para enfrentar novos desafios. E aí, coincidentemente, me vejo novamente com ele nas mãos para continuar a leitura.

Como coloquei anteriormente, inúmeras são as lições e mensagens que ele passa. E como todo livro, sua percepção depende igualmente das experiências pessoais do leitor. Essa interação – leitor-texto – pode ter múltiplos resultados, uma vez que cada um transpõe seus anseios de maneira distinta em relação ao que está sendo relatado, sendo tocado em pontos que não necessariamente são os mesmos que para um outro leitor.

Tive um exemplo disso recentemente: num debate sobre a rigidez, espaço de poder e hierarquia comentei com dois amigos que “A Cabana” questionava esses fatores, digamos, limitantes, em dado momento. Ao que recebi em resposta, meio que afastando este livro como sendo válido para tal argumentação, a seguinte frase: “Este foi um dos livros que mais me deixou triste quando o li!”. Somente agora, terminada a minha própria leitura, posso imaginar – e somente imaginar, nunca saber – o que esta determinada pessoa sentiu.

Porém, devo dizê-lo: talvez este atue como “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. Ou seja, um daqueles livros em que você, em momentos diferentes de sua própria vida, terá leituras distintas das mensagens passadas. E assim acredito que este leitor desiludido poderia dar mais uma chance para ele, mas adiante, se despindo da experiência passada.

Vou colocar, para vocês abaixo, o que eu depreendi do mesmo, em frases isoladas:

·         O amor supera todas as dificuldades;
·         O perdão é uma força libertadora;
·         Mais flexibilidade na vida nos ajuda a sermos pessoas melhores;
·         Devemos evitar julgar as pessoas;
·         As instituições não são maiores ou melhores que as pessoas que as compõem;
·         A confiança mútua só se alcança quando se deixam os preconceitos de lado e o diálogo é realmente praticado;
·         Os relacionamentos e a maneira como são conduzidos são a base de tudo.

Alguns dirão – mas isto são lugares comuns constantes em livros de auto-ajuda. Mas, a pergunta que lhes faço então é: se isso é realmente tão simples de ser identificado, porque é tão difícil de ser praticado? Talvez “A Cabana” ajude você a encontrar algumas respostas para essa pergunta. E seguindo a própria filosofia pregada no livro, ele talvez não apresente as respostas definitivas, mas todos nós temos o direito e a liberdade de procurá-las.

Feliz 2012!

PS 1 – o livro centra o seu esforço na percepção que temos de Deus em nossas vidas. “Intenso, sensível e profundamente transformador, este livro vai fazer você refletir sobre o poder de Deus, a grandeza de seu amor por nós e o sentido do sofrimento que precisamos enfrentar ao longo da vida”. Porém, não quis enfatizar tal aspecto nesta minha análise, pois ela poderia afastar aqueles menos “religiosos” então de sua leitura. Acredito que o livro sirva para todas as correntes e para todos os credos, por suas lições de paz para a humanidade – “[...] o sistema do mundo é o que é. As instituições, as ideologias e todos os esforços vãos e inúteis da humanidade estão em toda parte e é impossível deixar de interagir com tudo isso. Mas eu posso lhe dar liberdade para superar qualquer sistema de poder em que você se encontre, seja ele religioso, econômico, social ou político. Você terá uma liberdade cada vez maior de estar dentro ou fora de todos os tipos de sistemas e de se mover livremente entre eles. Juntos, você e eu podemos estar dentro do sistema e não fazer parte dele”. (pág. 168). As críticas foram contumazes, tanto por parte de evangélicos quanto de católicos, em sua maioria baseados numa fraca teologia na qual estaria estruturado. Porém, pelo que me parece, a intenção do autor não foi a de ser um teólogo strictu sensu, e sim de passar uma mensagem de amor e paz, e como a força desses sentimentos pode ser transformadora. Mas esta é apenas a minha opinião. Para que você tenha a sua, tem que ler o livro.

PS 2 – O livro gerou um site interativo - www.theshackbook.com – mas eu aconselho ler o livro primeiro antes de acessá-lo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ANTROPOCENO

Por várias vezes me vi interessado por filmes pós- apocalípticos, em que humanos têm que lidar com os escombros de sua interferência no planeta Terra, buscando a sobrevivência às custas uns dos outros. Alguns exemplos seriam a trilogia “Mad Max”, iniciada em 1979 e que teve Mel Gibson como astro principal; a série “Exterminador do Futuro”, que teve seu primeiro episódio em 1984, capitaneada por Arnold Schwarzenegger; e o mais recente – e por mim ainda não vista – “O Livro de Eli” (2010), tendo como protagonista Denzel Washington.

O que chama atenção em cada um destes é que existe uma perspectiva tremendamente negativa do impacto da humanidade sobre o planeta. Na comunidade científica esta Era de prevalência do homem vem sendo chamada de Antropoceno. Mesmo não sendo ainda uma unanimidade – e isto fica claro na reportagem da National Geographic Brasil (NGB) – edição Março/2011 – págs. 62-83 – tal nomenclatura ou honra a ser dada ao Homo Sapiens fica difícil ignorar que nós efetivamente estamos influenciando o meio que nos cerca.

O que me questiono é se as teorias cataclísmicas estão realmente mais próximas da verdade ou se ainda há tempo para revertermos um processo maléfico de deteriorização do ambiente em que vivemos. A reportagem da NGB tem um tom negativo, até mesmo pelas fotos nelas presentes – uma cidade árabe com seus arranha-céus em pleno deserto; uma praia da Toscana gerada a partir da poluição da indústria química circunvizinha; postos de exploração de petróleo na Califórnia, etc. Quando olhamos de uma perspectiva macro, parece-nos difícil deter tal tendência. Mas e se olhamos em termos micro, estaríamos cada um de nós tentando realmente paralisar tal processo?

Não vou começar aqui um discurso ecologista extremista. Até mesmo porque sendo bem sincero não é o meu perfil. Mas algumas pequenas atitudes tomo. Sempre jogo lixo na lixeira, tendo o cuidado de que quando existe uma destinação específica – papel, metal, orgânico – fazer a devida separação. Porém a estrutura de nossas cidades ainda não está suficientemente voltada para estas iniciativas – pelo menos no Brasil. Não desperdiço comida. O que vai ao prato será consumido. E algumas vezes consumo o que está nos pratos dos amigos – isso eles bem o sabem. Procuro deixar os ambientes com a luz apagada e desligo as máquinas da Academia que freqüento quando não as estou utilizando – é muito comum encontrar as esteiras com seus visores ligados, mesmo sem ninguém as utilizando.

É o suficiente? Claro que não. Mas eu não gostaria de olhar para daqui a duzentos anos e encontrar escombros de megacidades como sendo a única herança a deixar para os meus descendentes. Aí lhes faço uma outra pergunta: aquelas caixas do tempo que são enterradas vez em quando em jardins e solenidades, o que vocês gostariam que elas contivessem como lembrança do período atual? Elas contém, além de objetos dos dias de hoje, uma carta na qual apontamos nossos desejos para o futuro e até mesmo indicamos como este o será. Da minha parte ela seria assim constituída:

Camisas das seleções brasileiras de futebol e vôlei
Um livro
Um CD de música
Uma foto da minha família
Sementes
Um prato e talheres

Na carta eu desejaria que as lembranças ali contidas representassem o modo como a cultura mais me tocava, desejando que os homens do futuro ainda pudessem praticar esportes; ler um bom livro sem ser na tela do computador, mas editado em papel reciclado; pudessem ouvir uma boa música sem serem interrompidos pelo som de balas perdidas; que minha família tivesse uma descendência orgulhosa do futuro que foi plantado; e que se mesmo assim, nada disso existisse, que as sementes servissem para germinar o alimento que seria consumido com o prato e os talheres que lá se encontrariam.